O consumo, aliado a cultura do descarte, são grandes vilões da sustentabilidade. Um produto começa a gerar lixo muito antes do descarte, desde a fabricação da matéria-prima.

Vamos pegar uma roupa como exemplo. Se ela for de algodão, tudo começa na plantação de algodão, muitas vezes regada de agrotóxicos, prejudicando o solo, a água e os entornos. Depois há a extração e a produção da fibra e do tecido. Aí entram os tecidos sintéticos também, feitos a partir do petróleo, cuja extração é mais prejudicial do que a do algodão. Depois há os processos de confecção, logística e distribuição, uso e manutenção e finalmente o descarte. Cada etapa do processo gera muito resíduo e CO2.

É por isso que falamos tanto em reutilizar, comprar de segunda mão, consertar e diminuir o consumo.

Fomos entender o que nos leva a consumir tanto. É uma busca por felicidade, por aceitação? Por que a nossa sociedade é pautada pelo consumo? Convidamos Fernanda Resende, autora do livro “Substitua Consumo por Auto-Estima”, para tentar nos explicar essa relação. A conversa – deliciosa – está neste link.

A Fernanda trabalhou muitos anos como personal stylist e depois de 20 anos entrando no guarda-roupa de suas clientes, ela percebeu que todas elas tinham muito mais roupas do que de fato usavam. Ela conta que há pesquisas que mostram que nós geralmente usamos apenas 20% dos nossos armários de roupas. Isto é, aqueles 80% estão ali apenas ocupando espaço, nos atrapalhando a escolher melhor. Acabamos usando as mesmas coisas, permanecendo insatisfeitos.

Depois que a Fernanda limpava esses armários de clientes, eliminando esses excessos, só restavam itens que as faziam sentir bonitas, itens que elas gostavam e usavam de fato. Essa “limpa” acabava em impactar o comportamento e a auto-estima das clientes.

“Quando temos menos, e esse menos faz mais sentido, a gente começa a descobrir novos jeitos de usar as mesmas coisas e isso nos coloca num lugar de autonomia, de reconhecimento de potência, de força emocional. É isso que merecemos, que nos faz sentir melhor de fato.” Ela fala.

Ter menos, mas ter menos estrategicamente ajuda a exercer a criatividade e a autoestima. O mais interessante que a Fernanda comenta é que não é necessário simplesmente romper com o ato de comprar. Há sim alguns benefícios em se dar um presente de vez em quando, o grande lance é comprar com propósito, com pragmatismo, raciocínio e eficácia.

Comprei porque eu mereço

No começo do livro ela diz que, quando estamos nos sentindo mal e compramos algo, não devemos pensar “eu comprei porque eu mereço” – merecemos nos sentir bem, merecemos relações boas e momentos bons, não uma compra. Dá um quentinho no coração fazer uma compra, mas vai embora tão rápido quanto chegou.

Porém, pensar desta forma é quase nadar contra a maré, já que o sistema no qual estamos inseridos, o capitalista, nos empurra o tempo todo para o consumo. Nos dizem incessantemente: “você não é bonita o suficiente”; “você não tem cara de rica o suficiente”; “não tem coisas legais o suficiente”. E acabamos vivendo em função de preencher esses supostos vazios. É difícil manter-se alerta para não cair nessas falácias.

E como fazemos para ter um armário e hábitos de consumo mais alinhados conosco?

  • O primeiro passo é fazer a famosa limpa no armário e tirar os excessos e o que nos faz perder tempo.
  • Depois, é primordial se conhecer melhor – se tudo em volta quer que a gente tenha muitas coisas, é preciso se conhecer muito bem para saber o que de fato nos faz bem e o que de fato precisamos ter.

É fazer um verdadeiro trabalho de autoconhecimento mesmo. Quem sou eu? Quem eu quero ser? Quais os meus valores? No que eu acredito, do que eu gosto?

Quando formos escolher algo, escolhemos sabendo: o que é bom para mim, o que eu quero, o que vai ter eficácia na minha vida e não o que vai continuar abastecendo esse sistema que nos faz se sentir infeliz.

O livro da Fernanda é separado em três territórios:

  1. Quando comprar: quando a gente precisar (é diferente de querer)
  2. O que comprar: coisas de qualidade, tanto quanto o nosso dinheiro alcançar. É conhecer a melhor qualidade que cabe no nosso bolso.
  3. Como comprar: com parcimônia. Com mais atenção e cuidado.

Algumas dicas que saem desses territórios: só comprar quando amar a peça em questão. Não porque tá barato, tá em promoção, a amiga comprou, o Instagram sugeriu.

Essa ideia de que acumulo é sinônimo de sucesso é uma verdadeira loucura da nossa geração. Você já parou para pensar que quanto mais coisas a gente tem, menos tempo temos? Porque as coisas demandam de nós: limpeza, cuidado, administração.

É muito legal também avaliar o desejo por trás de cada compra – será que estou comprando essa blusinha porque quero me sentir bonita, quero pertencer a um grupo? Entendendo esse bastidor, você consegue trabalhar com o propósito real de cada compra.

O golpe está aí: o sistema vai querer ver a gente bem insatisfeito, sempre consumindo fórmulas mágicas que nunca nos satisfarão. Quanto mais nos informarmos a respeito, quanto mais nos libertamos dessas ideias, mais conseguiremos substituir nosso consumo pela nossa auto-estima.

Recomendamos:

Substitua Consumo por Auto-Estima, Cris Zanetti e Fê Resende
Disponível na Estante Virtual: https://www.estantevirtual.com.br/livros/cris-zanetti-fernanda-resende/substitua-consumo-por-autoestima

 

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